terça-feira, 4 de agosto de 2015

Poliglota em inglês



Poliglota em inglês


O escritor irlandês George Bernard Shaw (1856-1950) disse certa vez que England and America are two countries separated by a common language, ou seja, “a Inglaterra e os Estados Unidos são dois países separados por um mesmo idioma”, ou algo parecido.

Longe de mim querer causar aqui um misto de revolta e indignação, mas tomo a liberdade de argumentar que as palavras do célebre dramaturgo e jornalista irlandês nunca soaram tão contemporâneas como nos dias de hoje.

Quem estuda o idioma bretão com um pouco mais de profundidade do que o habitual (palavras soltas, frases fixas e expressões idiomáticas) já deve ter percebido há muito tempo que a língua inglesa não é um idioma uno e padronizado como muita gente acredita ou deixa transparecer. Ao contrário, a English language tem variantes e variedades que abrangem desde diferenças lexicais até estruturas morfossintáticas que transcendem o padrão American/British English de ser.

 Quando focalizadas suas variantes menos conhecidas ou difundidas, como o Indian, Irish e Jamaican, o inglês causa um quê de surpresa e perplexidade naqueles que não estão acostumados com seus sons, grafias e, digamos, liberdades gramaticais. Daí ser comum a necessidade de haver um tempo de adaptação a uma modalidade da língua inglesa que praticamente não aparece na mídia, ou nos livros didáticos.


 Como as escolas públicas e particulares brasileiras seguem uma tendência mundial, a prioridade é dada (se muito) ao linguajar padrão que é expresso pelo Inglês Americano e pelo Inglês Britânico, mais divulgados e ‘mais respeitados’ em todo o planeta. Com o passar do tempo, revela a realidade educacional brasileira, nem um e nem outro parece ter sido muito bem assimilado pelo nosso alunado, e uma confusão maior ainda se forma em seus corações e mentes quando eles se dão conta de que as (muitas) regras e o (pouco) vocabulário que aprenderam na sala de aula são de valia relativa quando ouvem músicas e assistem a filmes em que o coloquialismo, as gírias e os diferentes tipos de inglês (ou Englishes, como quer o linguista e escritor britânico David Crystal) são muito comuns, e recorrentes.

 Ao contrário do que acreditam muitos (inocentes) aprendizes brasileiros de inglês, o idioma que aprendemos mesmo nas escolas franqueadas há (sim) de nos ser bastante útil, se devidamente aprendido, mas ele não vai nos privar de viver situações confusas, engraçadas e/ou embaraçosas, em especial quando falamos com estrangeiros. Isso se explica por muitos fatores, lógico, mas quase tudo se resume ao campo da pronúncia e do vocabulário utilizado nas interações – além do grau de interesse/empatia existente entre os falantes, of course.

 Fica claro, portanto, que é preciso melhorar a nossa capacidade de falar com pessoas de qualquer país onde o inglês é falado como primeira língua (como Nova Zelândia e África do Sul), segunda língua (como Singapura e Camarões) ou localidades em que pessoas estejam capacitadas a ler, escrever, ouvir e falar inglês como língua estrangeira, como é o caso do Chile e de Portugal. Além disso, é importante também investir algum tempo (e dinheiro) na capacidade individual de entender e imitar os diferentes sotaques e significados das palavras que são utilizadas pelas diversas comunidades linguísticas que estão relacionadas, direta ou indiretamente, à cultura anglo-americana em todo o planeta.

 Por fim, vale lembrar as disparidades existentes quando se compara o português do Brasil com o de Portugal. Há quem se atreva a dizer que elas se assemelham muito a aquelas existentes entre o inglês da Inglaterra e o dos Estados Unidos. Exagero ou não, um dos segredos da boa comunicação em qualquer idioma, você já deve ser percebido, é ser capaz de passear por suas nuances e complexidades sem acreditar cegamente em noções esdrúxulas como ‘certo’ e ‘errado’ – como se na vida e na linguagem tudo se resumisse em tamanha simplicidade, e ser poliglota fosse para poucos…

(*) Jerry Mill é mestre em Estudos de Linguagem (UFMT), presidente 2009-2015 da Associação Livre de Cultura Anglo-Americana (ALCAA), membro da ARL (Academia Rondonopolitana de Letras), voluntário e parceiro do Rotary Club de Rondonópolis
 
fonte: A Tribuna

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