quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Escolas de idiomas abrem cursos exclusivos para maiores de 55 anos

Escolas de idiomas abrem cursos exclusivos para maiores de 55 anos


Como levar o neto à Disney sem falar inglês? A corretora aposentada Glória Aparecida Cardoso Harmonia, 56, transformou em solução - e em atividade- o que para muitos poderia ser um problema: começou, há duas semanas, a estudar o idioma em uma escola criada especialmente para pessoas acima dos 55 anos.

"Acho que, no ano que vem, já consigo ir", conta Glória, que já faz parte da chamada terceira idade. Ao contrário do que o senso comum crê em relação às dificuldades de aprendizado nesta fase da vida, Glória conta que está "costurando muito bem" as novas informações que recebe.

Sua colega das aulas de inglês, a florista Gilda Maria Aulicino, 57, que já foi à Espanha fazer curso de especialização, também está confiante. "Antes, sempre que aparecia algo nos Estados Unidos ou na Inglaterra, ficava sem coragem de ir. Agora, espero logo enfrentar um desafio assim."

Esses cursos são novidades nas escolas, mas são oferecidos há, pelo menos, cinco anos nas chamadas universidades abertas à terceira idade (caso da Unifesp - Universidade Federal de São Paulo) e também são promovidos pelos centros de extensão cultural das instituições de ensino superior como a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a estadual do Rio de Janeiro e a PUC do Paraná.

Nessas instituições, a demanda aumentou nos últimos anos. Na UFSC, a procura pelos cursos de inglês e espanhol cresceu cerca de 15% no último ano. Na Unifesp, as turmas de inglês têm cerca de 50 pessoas na fila de espera. Mais que ocupação do tempo livre, os alunos "maduros" têm encontrado os mais variados motivos para continuar o aprendizado.

A assistente administrativa aposentada Cristina Smallwood, 63, começou o curso de italiano para poder se corresponder com a avó italiana do namorado da filha; o representante de vendas aposentado Wilton Gomes Corrêa, 66, quer entender melhor as letras de suas músicas italianas preferidas. Ambos estudam no Centro de Estudos Prisma, do Colégio Santa Maria, em São Paulo, em uma turma dedicada à maturidade.
Justamente por não serem obrigados, maiores de 55 que encaram essa empreitada demonstram uma característica importante: determinação. "Não é raro os mais velhos sentirem dificuldade de enfrentar situações novas; se fazem isso, é porque possuem bastante força de vontade, o que já é um indício de boa saúde", diz o geriatra João Toniolo Neto.

Como explica o médico, a partir dos 55 anos -o marco oficialmente reconhecido como o início da terceira idade- o organismo não responde aos estímulos da mesma forma. "Existe uma discreta perda da memória de fixação, que é a utilizada para registrar novas informações, além de redução na acuidade visual e auditiva", segundo Toniolo. Essas diferenças no ritmo de aprendizado acabam mostrando algumas vantagens das aulas exclusivas, seja nas escolas de idioma, seja nos programas para a terceira idade das universidades.

"Não me adaptaria a uma classe com pessoas mais jovens, elas fazem muita bagunça, fica difícil concentrar-se", conta Glória. Gilda Aulicino também não se sente à vontade. "Os jovens têm o raciocínio muito rápido, acho que não conseguiria acompanhá-los." Para a dona-de-casa Nilsa Comparini Moretti, 72, estar em um grupo em que todos estão na mesma faixa etária "traz mais conforto". "A gente pode trocar idéias sobre assuntos comuns." Fortuna Ambrósio Pesso de Vasconcelos, 61, está na mesma turma de italiano que Nilsa e concorda: "Além das afinidades, o ritmo da aula fica adequado a todos da turma".

A psicóloga Maria Célia de Abreu, especializada no atendimento à terceira idade, no entanto, alerta para o possível isolamento que pode surgir nesses grupos. "Se o idoso tem a chance de conviver com jovens em outras atividades de sua vida, ainda que seja em família, é muito interessante participar desses grupos exclusivos à sua faixa etária. Mas, se ele tem pouca oportunidade de manter relações intergeracionais, seria melhor procurar uma turma heterogênea, pois a falta de contato próximo com pessoas mais jovens pode gerar ainda mais exclusão."

Para Nadir Aparecida de Matos Nogueira, coordenadora da Universidade Aberta à Terceira Idade da Unifesp, "todo o conteúdo deve ser ministrado lentamente, caso contrário, os alunos se perdem". Os coordenadores pedagógicos das novas escolas, além da redução no ritmo das aulas, apostam na mudança de metodologia: fazer com que os alunos aprendam a nova língua com atividades do dia-a-dia, para eles, faz com que fixem melhor o conteúdo.

"Trabalhamos pouca gramática. A idéia é que o aluno converse e aplique o idioma na rotina", diz Marcelo Biancalana, coordenador pedagógico da Convivial. Maria Teresa Manzione Zanzotti, do Colégio Santa Maria, explica que os alunos "maduros" preferem as vivências às atividades realizadas com áudio e vídeo. Nas duas escolas, espaços como a cozinha, a sala de estar e o jardim são utilizados pelo menos em metade do período da aula. "Vou para as aulas como se fosse visitar os amigos", afirma Glória.

Se, por um lado, o declínio na memória de fixação pode ser um empecilho, por outro, as informações do passado -incluindo idiomas aprendidos- podem vir à tona com esse novo estímulo, segundo Paulo Henrique Bertolucci, chefe do Setor de Neurologia do Comportamento da Unifesp. "E vale para qualquer idade: se o professor utiliza outras formas de fixação de conteúdo além das tradicionais, mas que tenham a ver com aquilo que o aluno gosta, o aprendizado fica mais fácil", diz Bertolucci.

Estela Maria Ribeiro da Silva, 59, que trabalha com o marido advogado, estava há dez anos sem estudar inglês. Retomou os estudos com uma professora particular da escola Build Up, que prepara as aulas de um jeito diferente: "Sempre lemos algum livro de arte em sala e vamos a exposições", diz. O aprendizado, então, é estimulado pelo interesse pessoal: as artes plásticas são a grande paixão de Estela. "Logo que retomei as aulas, percebi quanto tudo ainda estava na minha memória."

A escola de Idiomas Centro Britânico também possui um curso voltado para esta área, chama-se Golden Years. "No Centro Britânico, idade não é desculpa. Qualquer idade pode aprender sim um novo idioma. Claro que as aulas são personalizadas, mas com um método aprovado pela Universidade de Cambridge" conclui Fernanda Morgantetti, coordenadora do Centro Britânico Tucuruvi.

(Folha de S. Paulo)
 
 
Idosos trocam experiências com os mais jovens
Quando chegou à sala de aula com um livro de inglês de 20 anos atrás, o engenheiro industrial aposentado Luiz Kanashiro, 62, diz que os outros alunos da classe "tiraram um "pêlo'" dele. A gíria usada por Kanashiro dá uma idéia de como ele reagiu às brincadeiras: "Não liguei, somos todos colegas, e realmente aquele livro já tinha passado do tempo".

Os que "tiraram um onda" de Kanashiro têm em média 30 anos menos que ele e é justamente essa diferença de idade que estimula o aposentado. "Estar em um sala com jovens não é entrave nenhum. Existe uma troca de experiências muito interessante. Eles gostam de saber por que eu continuo estudando até hoje, querem saber o que já fiz na vida", conta Kanashiro, que fala espanhol fluentemente, estuda inglês na Cultura Inglesa há dez anos e não sente que o ritmo das aulas é muito acelerado para ele. "Dou conta, sem problemas."
Além de se considerar um exemplo entre os jovens -"já que muitos deles vêem o quanto eu me dedico, pois não falto e faço todos os exercícios"-, Kanashiro aprende bastante com eles. "Dá para eu me manter sempre atualizado. Eles falam de cinema, de teatro, de música, e eu acabo me inteirando sobre o que acontece de novo na área cultural", conta Kanashiro, que perdeu "o receio" da tecnologia impulsionado pelos outros alunos.

"Os jovens deitam e rolam em frente a um computador. Não dava para eu pedir a um colega que ficasse lendo meus e-mails e abrindo programas. Então, passei a me interessar pelo assunto e garanto que aprendi bastante", diz. "Não quero parar nunca de me aperfeiçoar no idioma."
(Folha de S. Paulo)

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